Soberba

Soberba

Katia Mello

Nossa rotina não está imune a mal-entendidos. Uma frase áspera, um gesto impulsivo ou uma pequena discussão fazem parte do dia a dia. Mas o que geralmente é contornado com algum tempo e uma pequena conversa pode durar muito mais do que o recomendado quando o orgulho entra em cena. Uma história ocorrida com um rapaz de São Paulo ilustra bem isso. Ele discutiu com a mãe e ela disse que, se ele tornasse a chegar tarde em casa, trocaria a fechadura para o jovem nunca mais entrar. Ao voltar de um encontro com amigos, o homem tentou colocar a chave algumas vezes e, como não conseguiu e não obteve resposta aos chamados e à campainha, foi embora para nunca mais voltar.

Casou-se, teve filhos e só encontrou a mãe de novo quando ficou sabendo que ela estava doente, mais de 10 anos depois. A pergunta dele foi: “Mãe, por que a senhora fez aquilo comigo? Trocar a fechadura!” E ficou sabendo que ela não tinha trocado nada. Na verdade, a chave dela tinha quebrado na porta e ela tinha saído para procurar um chaveiro. Certamente nenhum deles acha que valeu a pena.

“Os psicólogos norte-americanos Robert Enright e Joanna North definiram o perdão como ‘um desejo de abandonar o direito próprio ao ressentimento, julgamento negativo e comportamento indiferente direcionado à pessoa que injustamente nos feriu, ao mesmo tempo em que se promove a compaixão, a generosidade e, até mesmo, o amor por tal pessoa’. Muitas vezes a pessoa recusa-se a perdoar por entender que isso demonstraria que quem a feriu estaria certa”, avalia Giovana Del Prette, psicóloga comportamental e professora de pós-graduação do Núcleo Paradigma, em São Paulo. O orgulho é justamente essa incapacidade de perdoar.

“A arrogância, assim como o orgulho e a soberba, é como uma máscara para o ser humano. Quem se coloca nessa posição quer esconder algum tipo de dificuldade, como insegurança, carência, ou até mesmo narcisismo, uma necessidade de ser admirado e respeitado. É um comportamento artificial”, afirma a professora Ana Magnólia Mendes, psicóloga da Universidade de Brasília. Não são apenas as relações familiares que são afetadas pela arrogância. “Em muitos casos a pessoa não se sente realmente competente, é insegura e acaba descontando nos demais. E quem trabalha com esse indivíduo tem que aturar esse comportamento”, diz Roberto Heloani, professor titular de Psicologia do Trabalho na Universidade Estadual de Campinas.

A atendente Rafaela Pereira dos Santos, de 20 anos, foi humilhada por uma cliente descontente com um produto adquirido na loja em que trabalha. “Ela pediu para trocar um porta-perfume justificando que estava vazando e nós trocamos. Ela começou a ficar nervosa e a falar que já era a segunda vez que estava trocando aquele produto e que era minha obrigação fazer a troca, que eu sou atendente e paga para fazer esse serviço”, conta Rafaela, que preferiu ficar quieta e dar razão à cliente, mas nunca esqueceu “o jeito como ela falou”. Inserir alguém em uma situação humilhante ou de desprezo faz parte da índole de um arrogante. O churrasqueiro José Valdir Nascimento, de 34 anos, também teve problemas com clientes mal-educados. Preparei uma bisteca para um rapaz que devolveu reclamando que estava crua. Pus novamente na churrasqueira, assei e mandei para a mesa. Ele veio me devolver e disse que era para eu mandar aquela porcaria para a minha mãe comer. Só que a minha mãe mora lá no Ceará. Não dá, né?”, brinca Valdir. Em muitos casos, o bom humor é mesmo a melhor saída. “No caso de um cliente, o melhor é ignorar mesmo, deixar passar. Porém, no caso de um chefe ou colega, a pessoa tem de conversar e resolver”, diz Ana Magnólia. Gerlania Evangelista, de 21 anos, passou por isso. Ela trabalhava como balconista em um restaurante que tinha como costume servir lanches aos funcionários. Um deles comeu o último e foi humilhado pelo patrão. “O chefe começou a gritar e ameaçar”, lembra.

Nos tempos atuais, infelizmente a arrogância parece estar se tornando uma conduta mais comum no mundo corporativo. “É uma característica que vem sendo notada entre os jovens que estão embarcando no mercado de trabalho. São pessoas com nível diferenciado de educação, que se acham mais espertas do que a maioria, demonstram impaciência com os processos de seleção e até dentro da empresa e não parecem dispostos a conhecer o universo alheio”, diz a psicóloga Adriana Gomes, professora de pós-graduação na Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo. “Esses profissionais costumam ter mais dificuldade de acesso a empregos, pois são menos tolerantes e flexíveis e as empresas buscam, hoje em dia, pessoas que saibam trabalhar bem em grupo”, afirma Adriana.

Lidar com um arrogante não é tarefa fácil, mas Ana Magnólia tem algumas dicas: “Diga ao setor de Recursos Humanos que está tendo dificuldade de relacionamento e eles tomarão uma atitude, que pode ser até aconselhar uma terapia”, orienta a especialista.

Fonte: Folha Universal
Imagem: Google

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