Heróis imperfeitos

Heróis imperfeitos

Heróis imperfeitos

Você já se deu conta de que muitas vezes exigimos tanto de nós mesmos, que tentamos ser “super-heróis”? A mulher tem que ser bonita, estar sempre bem vestida, ter corpo escultural, boa formação, ser competente no trabalho, boa mãe, boa esposa. O homem, por sua vez, tem que ter a melhor formação, o melhor emprego, o melhor cargo, ser bonito, gentil, bom amante, bom pai, dedicado ao trabalho, à família… Ufa!

Mas, é possível ser perfeito em tudo? Nos permitimos ter imperfeições? E qual a razão desta busca incansável pela perfeição?

Floriano Serra, psicólogo e autor de artigos sobre o comportamento humano, fala sobre o assunto e também nos dá um panorama sobre esta questão tão atual.

Ao analisar a questão, primeiramente pontua que é positivo a sociedade passar por transformações. Mas, na atualidade, essas mudanças estão ocorrendo em uma velocidade mais rápida que a capacidade do ser humano em acompanhar. E isso tem gerado diversos conflitos internos, que causam confusão mental, frustração, estresse e até depressão. A prática da empatia, o compartilhar de habilidades e conhecimentos, a aceitação das diferenças individuais, o interesse e o respeito pelo bem estar do outro, a manutenção da auto-estima – tudo isso traria maior paz e serenidade às pessoas.

Os valores de uma sociedade são dinâmicos e mutáveis. Na sociedade grega, por exemplo, a beleza feminina nada tinha a ver com a beleza das modelos atuais. Nas culturas consumistas como a que vivemos, esses valores, bem como os padrões e critérios de beleza e sucesso, são criados e disseminados pelos que monopolizam os meios de comunicação, como revistas, jornais, televisão, teatro e cinema. O público menos estruturado vê, ouve e lê essas coisas e se sente pressionado a perseguir aqueles padrões. O homem ideal ou a mulher ideal são aqueles que são apresentados pela mídia como “modelos”, ainda que não necessariamente éticos e morais. Você não já percebeu que em certos filmes e novelas o público torce pelo vilão? Em consequência dessa tendência, muitas pessoas se despersonalizam, abrem mão dos seus próprios paradigmas e correm atrás daquele que é imposto. Você não conhece pessoas que adotam o nome, os trejeitos, o penteado e a forma de vestir de artistas do cinema e da televisão? Certamente há exceções, há aqueles que praticam e seguem o que internalizaram em sua formação familiar, mas estes geralmente são vistos como “atípicos” e muitas vezes têm dificuldade de integração com outros grupos.

Uma “realização” pessoal ou profissional embasada em valores superficiais e pouco consistentes, como beleza, poder, status e dinheiro tendem a perder sua essência e caem no exagero e excesso na busca dessa “perfeição”, que, por ser utopia (já que não existe a perfeição…) leva à frustração, depressão, estresse e outras somatizações. Mesmo correndo o risco de ser considerado “careta”, ainda estou com o bom e velho Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível para os olhos”…

Negar a imperfeição humana é uma atitude absurda e infantil, porque o ser humano é imperfeito por natureza e por essência. A vida é uma permanente busca de melhoria e evolução. Correr obsessivamente atrás da perfeição e da realização plena é uma atitude neurótica e infrutífera, assim como o cachorrinho que corre atrás do próprio rabo. Devemos procurar fazer sempre o nosso melhor, seja no trabalho, seja na vida pessoal e familiar, mas é preciso não esquecer que a cada tentativa de acerto equivale à possibilidade de um erro. Só há um jeito de não errar: é não fazer nada – o que já é um erro… Nessa busca desesperada, a pessoa deixa de apreciar e curtir as coisas simples e belas da vida, como o amor, as amizades, a família, o lazer e até o não fazer nada…

Nessa busca nada é viável, porque carece de base sólida e coerente. É feita de fantasias e falsas auto-imagens. Tanto que muitas pessoas públicas que parecem ter atingido o tal sucesso, acabam tragicamente envolvidos em drogas, escândalos ou corrupção. A busca pela realização não pode ser uma corrida desesperada e infindável, com atropelos e “puxadas de tapete”. Apesar da busca pela realização exigir uma postura firme e esforçada de cada um, não pode perder de vista a serenidade, harmonia, viabilidade e capacidade de agregar felicidade e bem estar a todos.

De forma geral, posso sugerir que, se há um momento adequado para “parar e repensar” as atitudes, é quando a pessoa não se sente feliz com seu jeito de ser e com as coisas negativas que lhe acontecem em função desse jeito de ser. Dito de outra forma: é quando a pessoa atinge a maturidade – e aqui não me refiro à idade cronológica, mas à idade mental, psicológica. Há idosos completamente imaturos, assim como há jovens com a cabeça no lugar. Educação familiar, formação acadêmica e alguns aspectos hereditários podem fazer com que um jovem saiba escolher as opções naturais e adequadas de realização.

Fonte: Blog do Ombudsman Itaú
Imagem: PhotoBucket by RobertoArCor

Uma resposta to “Heróis imperfeitos”

  1. André Cabral Says:

    Excelente reflexão. O ponto positivo disso é que, quando nos decepcionamos e perdemos a segurança nos nossos “mitos”, nos tornamos ainda mais fortes com a experiência que ganhamos. Abraço.

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