Minorias já estão virando maioria: um saco!

Minorias já estão virando maioria: um saco!

James Martins

Eu, por exemplo, quando coloquei a primeira tatuagem ouvi de minha mãe (aborrecida mãe) que aquilo dificultaria na hora de arrumar emprego. Qual o quê? Argumentei, profético, que em pouco tempo haveria tanta gente tatuada que se os empregadores exigissem pele limpa não teriam mais a quem explorar com seus baixos salários. De fato: hoje em dia até os evangélicos, os judeus e as mães de família têm tatuagem. Difícil é encontrar alguém que não exiba os desenhos à tinta pelo corpo. Deixamos, os tatuados, de ser uma minoria contestadora, ousada, pra frentex. Ao contrário: tatuagem virou caretice! Não tem jogador de futebol que não tenha o nome do filho, da mãe, do cachorro… ou uma frase louvando a deus para exibir na hora do gol. Fez-se uma hegemonia. Da mesma forma, o advogado Waldir Santos me dizia: – “É muita coragem de sua parte dizer publicamente que não fuma maconha. Você mostrou não temer pressões e discriminações. Mostrou bravura” (se referia a este artigo). Brincadeiras à parte, há por detrás da ironia de Waldir a denúncia de algo cada vez mais fácil de identificar: as minorias estão se tornando maioria; inclusive com todos os vícios, desmandes e avidez por privilégios. Assim, assumir que não trai, que não usa drogas, que sente ciúmes ou que nunca viu um disco voador, em certos meios, é pedir para sofrer bullying, discriminação, etc. Não é outra coisa que o genial Falcão anuncia na letra de ‘A Sociedade Não Pode Viver Sem as Pessoas’: “Não é preciso ser nenhum Nostradamus / Pra saber que daqui a bem poucos anos / Quem não for viado não vai estar na moda”. Eis o que eu quero dizer: as lutas pelos direitos das chamadas minorias, ainda que justas, geram tantas distorções que de oprimido a opressor basta um dedinho ou uma melaninazinha a menos ou a mais.

Podemos falar em reversão do meio superaquecido ou troca periódica de sinais. O fato é que a mania do politicamente correto e a recente onda legisladora estão, me parece, criando um ambiente insalubre de falsa diversidade e muita adversidade. Por exemplo, aquele mesmo artigo em que reivindico a defesa dos evangélicos para o casamento civil dos homossexuais. Não estou, ali, em defesa de ninguém senão da razão – essa mal amada. Os evangélicos ou não entendem o óbvio ou se fazem de desentendidos. Até aí era o esperado. Agora, no ponto em que digo que “os evangélicos têm todo o direito de continuarem acreditando que a homossexualidade é uma prática torpe inspirada pelo Satanás”, os meus amigos viados e pró-viados também desentenderam, preferindo no lugar do confronto de idéias uma opção pela censura. Brochei. Depois, lendo uma entrevista do pastor Silas Malafaia, repleta de absurdos, tive que concordar com o ex-bigodudo na declaração a seguir, que dá um banho em diversos pretensos libertários: “O comportamento homossexual é um direito que a pessoa tem. O direito de ser é guardado pela Constituição, pelo livre-arbítrio. Não quero que ninguém seja eliminado. Critica-se presidente da República, critica-se pastor, padre, deputado, mas não pode criticar uma prática? Em hipótese alguma. Querer eliminar homossexual é homofobia. Não quero isso. Quero discutir com um homossexual e poder dizer que sou contra a prática dele, assim como os gays podem me dizer que são contra a prática dos evangélicos. Isso é democracia”. Tá certíssimo o pastor. Por exemplo, eu de novo: sou preto (ou quase preto), mas defendo bravamente o direito de racistas, nazistas e outros imbecis argumentarem que sou inferior ou o que seja. Só não vale agressão, mas pra isso já existe lei.

E por falar em agressão, não creio ser coincidência esse boom de ataques promovidos por grupos neonazistas, skinheads e sei lá o que mais. Lembro até de um tal vampiro tabaréu que matou uma garota em Belém do Pará no ano passado. Embora longe de mim querer justificar absurdos assim com nenhum pretexto, acho que essa onda de violência tem ligação direta com o clima recente de vigilância extrema a respeito dos preconceitos e todas essas leis de proteção às minorias. Lei não é evolução, muito pelo contrário. E evolução humana só se dá mediante o confronto livre de idéias, que é justamente o que muitas dessas leis pretende exterminar. Então, na verdade a caça às bruxas onde tudo é homofobia, racismo, machismo…, sufoca tanto os indivíduos que provoca uma verdadeira bruxaria (ou bruxalhada) como refluxo. Mas eu nem sei se posso dizer bruxaria ou se isso ofende alguém. Curioso é que nunca talvez foi tão adequada aquela reflexão de Nietzsche, de que é preciso defender os fortes dos fracos. Não quero dizer com isso que gays, negros e mulheres sejam fracos e brancos, machos e machões fortes. Mas que muita vez é esse o pensamento implícito na indulgência mórbida em favor daqueles (e no rigor também doentio contra estes). Senão, porque é que Fernando Guerreiro diz claramente no rádio que acha as atendentes paulistas “gélidas”, “sem sal”, etc. e ninguém diz nada? Ora, porque baianos e nordestinos podem. E por que podemos? Ora ora, porque somos fracos. Agora, sejamos francos: e se um radialista paulista dissesse que acha as atendentes baianas lesas ou folgadas não seria uma putaria? Meu raciocínio não visa impedir que Guerreiro, o querido F. Guerreiro, seja barrado de opinar sobre as paulistas. Antes, que paulistas, gaúchos e argentinos não sejam acusados de etnocentrismo por todos os juízos que façam de nordestinos ou brasileiros. Fica um lance como se a gente possa falar por que somos coitadinhos que ouvimos a vida inteira, credores históricos, e os paulistas não – por serem os devedores, os mais fortes, aqueles com poder de ofender. E, novamente no meu caso, não sou coitadinho coisíssima nenhuma.

Um exemplo fala mais que mil palavras. A famosa agredida Maria da Penha declarou que a lei que leva seu nome não deve ser usada para defender homens (nem viados) agredidos, só mulheres. E argumentou assim: “Você há de convir que a mulher que bate em um homem faz um estrago muito menor”. É o mesmo atestado de fraqueza, que, a meu ver, deveria ofender as mulheres. No fundo, o argumento dela é machista. Mas por conveniência. Senão, porque as mulheres reivindicam salários iguais na construção civil? Elas não são mesmo mais fracas? Vá dizer isso à Paula Amidani. Mas as minorias querem tudo. Eu falava em distorções. Eis o que quero dizer: não sou machista por discordar do projeto da deputada Luiza Maia; não sou racista por discordar da política de cotas; não sou paulista por achar o atendimento em Salvador terrível. A música horrível de Tiririca (hoje deputado federal), ‘Veja os Cabelos Dela’, deu processo porque se refere pejorativamente a uma mulher negra. Já a música do Ilê Aiyê que diz “branco se você soubesse o valor que o preto tem / tu tomava banho de piche e ficava preto também / e não te ensino minha malandragem, nem tampouco minha filosofia, / porque quem dá luz à cego é bengala branca e Santa Luzia” é um marco na luta contra o racismo.

E é quando a tentativa de compensar os sofrimentos (reais) causados pelos preconceitos e discriminações ultrapassa os limites e torna-se em si um abuso semelhante àquele que combate, cria-se a impressão de ditadura do excêntrico. Ou dos mais fracos. E vêm daí as piadas como a de Waldir Santos (citada) sobre os maconheiros. De fato, fica a impressão de que somos obrigados a sermos ou adorarmos o que até então era vetado. Lembro de um programa em que Chico Anísio apresentava o “incrível homem que NÃO viu um disco voador”, naquela época em que até a Elba Ramalho foi abduzida. É o mesmo espírito. Tem muita gente que evita opinar sobre o desempenho de um funcionário gay, baiano ou deficiente físico temendo ser acusado de preconceituoso. Por outro lado, achei uma tremenda babaquice a ideia do ‘Dia do Orgulho Hétero’. E, ainda por outro lado, empunhar as bandeiras das minorias (afinal preto é minoria ou maioria?) virou estratégia fácil para os demagogos de plantão. Para onde se olha só se vê minorias com suas tábuas da lei de reivindicações e 10 mandamentos. Só o indivíduo não tem vez. Eis a verdadeira minoria: a do indivíduo lúcido que defende princípios em vez de grupos. Esses sim sofrem o diabo. Os outros estão bem encaixados em seus grupos bem definidinhos. Tanto que a campanha contra a agressão a homossexuais foi atacada porque o garoto-propaganda é branco. Patrícia Conceição, que aliás é insuspeita, está me dizendo que existem subdivisões extremas, por exemplo: mulheres lésbicas negras nordestinas canhotas torcedoras do Vitória. Acredito piamente que em breve teremos uma nova classe, a dos ex-confinados (ou ex-BBB’s). Eles vão alegar que o estrelato repentino e o desaparecimento também repentino deixaram-nos traumatizados e com distúrbios psicológicos (alguns inclusive desconhecidos da psicanálise). Os ex-BBB’s vão pedir indenização do Estado e cota de aparição midiática. Vão fundar partidos e promover o Dia do Orgulho ex-BBB. E tem mais, os ex-Casa dos Artistas vão considerar os ex-BBB’s um grupo privilegiado que chora de barriga cheia. E ai de quem chamar algum deles de anônimo: processo certo! Pois é, Waldir, só acendendo um baseado pra relaxar.

Fonte: James Martins
Imagem: Bahia Notícias

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